Title: Feudalismo
AnvilFolk - October 14, 2006 10:49 PM (GMT)
Boas noites a todos,
Já há uns bons meses, lembro-me de, algures no fórum, ter utilizado a palavra "feudalismo", após o que o Mestre teve a gentileza de apontar que a palavra era muitas vezes mal empregada...
Pois bem, tenho vindo a ler alguns livros que penso que me terão clarificado um bocado a ideia.
Por nenhuma razão em particular, decidi partilhar aquilo que aprendi, talvez para começar uma conversa ou para ser corrigido, caso os livros não estejam correctos (ou hajam mais dúvidas do que as que a leitura faz transparecer).
O feudalismo seria portanto apenas o sistema através do qual um detentor de terra cedia a administração e direitos sobre uma parcela a outra pessoa, que ficava comprometida a fornecer serviços militares em tempos de paz e guerra. No caso de Inglaterra, que é a fonte à qual mais fácil acesso tenho neste momento, eram 40 dias de serviço em tempo de guerra, e o mesmo em tempo de paz.
Isto parece ter funcionado mais ou menos bem até aos finais do século XIII, quando começaram a existir mais campanhas além-mar, mais demorosas, onde se começou a pagar um extra a seguir aos 40 dias de serviço para que se pudesse continuar. No entanto, penso que por esta altura também começou a entrar em funcionamento o "scutage", que permitia que um cavaleiro não comparecesse mediante um pagamento. Surgiram várias medidas como a distraint que obrigava a qualquer detentor de propriedades acima de um dado valor tornar-se cavaleiro e acabar por dever serviço feudal a alguém - ou então a ter arneses e armas que mesmo não sendo cavaleiros poderiam ter de usar.
Tudo isto (juntamente com a demorosa Guerra dos Cem Anos) fez com que o número de cavaleiros que se dignava a aparecer quando se apelava ao serviço feudal diminuisse. De igual forma, os que apareciam muitas vezes não traziam os números requeridos. Aqueles que queriam apenas poder podiam obtê-lo envolvendo-se na administração de vilas e cidades, e prosperarem sem terem de pegar em armas. O "ser cavaleiro" perdeu algum do seu encanto, e a razão entre arqueiros e cavaleiros/homens de armas chegou a ser de 8:1, algures no século XIV ou XV.
O sistema feudal onde as pessoas ofereciam serviço militar em troca de terras foi gradualmente mudando para um sistema que pelos vistos se tem vindo a denomear por "bastard feudalism". A ideia manteu-se a mesma, mas em vez de terras, era oferecido dinheiro. Enquanto fossem pagos, lutavam, e a comparência aumentou. Contratados podiam sub-contratar, e a hierarquia que se via no sistema feudal anterior, até certo ponto, deve ter acabo por se manter. Era mais fácil manter campanhas mais longas, que ultrapassassem os tais 40 dias que eram típicos do serviço de séculos anteriores.
Isto aclarou-me um bocado as ideias, embora possa estar redundamente errado. No entanto, assumindo que tudo isto é possivelmente verdade... o que aconteceu com as terras? Deixaram de ser distribuidas em troca de serviço militar, então o que acontece? Revertem todas para os grandes senhores? São vendidas? Com certeza que os mais altos nas hierarquias quereriam algo de volta pelas terras que eram deles mas das quais não estavam a usufruir directamente.
Espero não ter escrito demais... e que quando lerem esta linha já tenham passado por todas as outras! Adoraria saber o que se passou cá em Portugal... se houve paralelo ou não, se foi completamente diferente... enfim, não podemos assumir que cá era tudo igual com algumas décadas de diferença.
Saudações!
Rowena - October 14, 2006 11:35 PM (GMT)
Olá João!
Seria talvez , bom, começares por umas historias de portugal sempre ficas com uma ideia generalizada da epoca medieval em Portugal, antes de começares a a aprofundares. Mas do pouco que eu sei da época medieval, neste caso o Mestre será o melhor a te esclarecer, posso dizer-te que o feudalismo não existio em Portugal, não podendo assim passares esses acontecimentos na Inglaterra para a nossa realidade.
Nélia
Mestre - October 16, 2006 02:57 PM (GMT)
João,
sucintamente, as conclusões que expressas estão correctas. Em Portugal as coisas não se passaram de forma muito diferente do que acontecia em Inglaterra e França. O laço feudo-vassálico que estruturava a sociedade determinava direitos e deveres precisos, quer por parte do suserano, quer por parte do vassalo.
Em termos da remuneração dos cavaleiros, efectivamente, para o fim da Idade Média, século XIV em diante, o fenómeno do acontiamento começou a delinear-se com clareza.
O cavaleiro acontiado era aquele que servia o rei e lhe era por este atribuida uma determinada contia (remuneração fixa em numerário). O rei continuou a doar terras a quem bem o servia, mas a procura começou a ser superior à oferta, o que fez diminuir tal prática, recompensando el-rei os seus cavaleiros com as tais contias. A doação de terras passou a beneficiar essencialmente quem socialmente tinha ou adquiria mais distinção, mormente grandes e médios senhores. Os ducados e condados foram crescendo de dimensão e, com as terras adstritas aos concelhos, às ordens religiosas e ao clero secular, à rainha, aos infantes e ao próprio rei, começou a tornar-se complicado para este arranjar uma nesga de terra sem dono.
Mas, devido à cada vez mais dramática necessidade da nobreza em financiar os seus gastos e a sua própria sobrevivência, a venda das suas terras, nomeadamente à burguesia crescente e empreendedora, transformou-se num expediente de disseminação/parcelamento da riqueza fundiária, que expandiu o mercado, não o deixando estagnar.
Mestre
AnvilFolk - October 16, 2006 06:43 PM (GMT)
Os meus agradecimentos, Mestre. Preencheu as lacunas e pequenas má-compreensões (más-compreensões?). Creio que o importante será mesmo, como a Nélia referiu, ler uma História de Portugal, para não ficar a saber apenas um pouco do que se passou noutras terras, mas também por cá. Maldita faculdade, não me deixa pegar em nenhum livro de maior "robustez", acabo por não lhe tocar durante dias seguidos e perco o fio à meada!
Agradeço de novo, e espero encontrar outro assunto sobre o qual possa deixar aqui alguma pouca informação!
Saudações!
alphonsvs - January 10, 2007 09:37 PM (GMT)
Olá a todos caros companheiros!
Vinha apenas satisfazer uma pequena curiosidade minha, visto que a Idade Media não é o meu forte (nem qualquer outra época lol :P ):
Para além do José Mattoso, que outros grandes historiadores desta época aconselham? e as suas respectivas obras?
Cumprimentos
Mestre - January 11, 2007 11:40 AM (GMT)
Oliveira Marques, Maria Helena da Cruz Coelho, Virgínia Rau, Iria Gonçalves, Maria José Pimenta Ferro Tavares, entre muitíssimos outros no domínio português. As temáticas abordadas por estes autores são variadas. O ideal é ler uma boa História de Portugal, sucinta, nomeadamente os capítulos dedicados à Idade Média. A "Breve História de Portugal" de Oliveira Marques, editada pela Presença, é uma aposta razoável para começar. É até acessível em termos de preço.
O Mestre da Ordem
LCSylla - January 11, 2007 03:38 PM (GMT)
Olá a todos
Há uma obra muito divulgada nas livrarias, da autoria do Prof. José Hermano Saraiva, com o título "História concisa de Portugal", que, na linha da obra do Prof. Oliveira Marques, se costuma apontar como uma das obras introdutórias e de divulgação sobre a História de Portugal.
A este propósito gostava de perguntar ao Mestre, se tal fôr oportuno neste fórum, qual a sua opinião acerca da perspectiva que o Prof. José Hermano Saraiva cultiva da história. Há quem critique abertamente, considerando-a abusivamente especulativa e fantasista. Por outro lado, há quem valorize bastante um certo apelo patriótico que o Prof. cultiva nas suas intervenções e nos seus programas de televisão.
Fiquem bem.
Até ao próximo estágio.
Mestre - January 11, 2007 07:00 PM (GMT)
Não referi essa obra de José Hermano Saraiva pelo facto de ser pouco substancial relativamente à Idade Média. Pessoalmente não tenho particular preconceito relativamente ao senhor em causa. É um académico de valor, embora discorde de certas tendências historiográficas suas. Como comunicador tem feito muito pela História de Portugal há longos anos.
Mestre