'Califórnia - EUA - ano de 2017.
O mistério, ainda que ronde a alma humana, provém do submundo ainda intangível. O mundo quedou-se em perdição. Sobre a terra não serão mais humanos que irão caminhar. Os exércitos estão sendo formados, as vidas, no silêncio de seu âmago vão sendo açoitadas. Os risos tangíveis roubados de seus lábios. Não existe mais o equilíbrio, não existe mais um lugar para onde correr, não há quem lhe abraçar para se esconder. Agora, só resta uma saída, de que lado você fica? '
Ano: 2017
Mês: Setembro
Fase da lua:
Atualmente a lua encontra-se em sua fase de Quarto Crescente
Tempo em Los Angeles:
Mín: 16ºC // Máx: 27ºC
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Main Street
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| Adélia Westwick |
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12:00, piscava em luz azulada o visor enegrecido de um aparelho eletrônico. Aquela mulher deitada em uma posição um tanto incomum para alguém que esteve adormecida, em decúbito frontal, braços abertos e pernas cruzadas, como Cristo otrora pregado a cruz; erguia um pouco a cabeça e franzia o cenho tanto pela luz do sol da tarde que invadia as janelas, as únicas do pequeno apartamento, voltadas para o poente, como para indicar que não acreditava que ainda era tão 'cedo'. Sobre o aparelho de videocassete com o visor piscante, um relógio digital marcava a hora certa. 15:34pm. A "crucificada" ergueu-se sobre seus cotovelos, limpando o rosto marcado pelo sono, lhe proporcionando uma nova fisionomia. A razão de ter dormido por tanto tempo? Bom, tivera uma noite longa e cheia de surpresas.
-Ugh... Acho que dormi demais. - Virou-se, agora sentando-se sobre a cama. O lençol que antes estivera ocultando boa parte do seu corpo revelava agora suas vestes. Uma camiseta da banda Ramones, negra e aparentemente costomizada. Tinha a gola alargada de modo a revelar o ombro esquerdo da mulher, e não possuia mangas. Seus longos cabelos negros estavam um tanto armados seu rosto fino era quase irreconhecivel escondido por trás das mechas desgrenhadas que caiam sobre seus olhos.
Levantou-se da cama depois de bocejar pela terceira vez, enquanto massageava suas costelas flutuantes, procurando um inchaço que se formara devido a ação da noite anterior. Ao despir-se de sua blusa no banheiro, além de revelar os pequenos seios arrepiados por uma inconveniente corrente de ar que por ali passara, quase como se estivesse esperando por aquele momento, apresentou ao espelho duas marcas escuras logo abaixo do seio esquerdo, sobre a pele já morena. Apertou-as com a ponta do dedo indicador e sentiu a mesma sensação que sentiria se enfiasse o dedo na tomada. Não se demorou muito tempo observando as manchas sobre seu corpo. Apenas desejou mentalmente que elas sumissem o mais rápido que pudessem e, se fosse possível, até que seu banho terminasse.
Através da janela de seu apartamento, conseguia ver a movimentação dos carros na avenida principal. Naquele instante um os carros começavam a se livrar de um pequeno engarrafamento que se formara, nada semelhante aos habituais que costumavam ocorrer nos horários de rush. Não se demorou muito observando os carros. Tentava se ater aos detalhes, aos mínimos sinais, imperceptíveis àqueles que não praticavam a mesma profissão que ela, e não demorou muito para encontrar o que estava procurando. Percebeu dois jovens namorados caminhando na calçada oposta a do edifício em que se encontrava. Trocavam carícias apaixonadas, embora peculiarmente violentas, mas não demorou para perceber o brilho distinto nos olhos de ambos e, com um olhar mais concentrado, observar no abdômen da jovem garota uma marca, ainda recente, de mordida.
-Os totós estão aprontando outra vez. Agora estão se proliferando muito rápido... Mas, com que motivo?
Se bem conhecia o comportamento dos licantropos, estes eram bastante seletivos quanto a quem transformar ou não em lobo. A família é algo que esta raça respeita e tende a proteger de qualquer maneira e, em geral, o critério mais buscado para a adesão de um membro ao grupo é a força física, ou de espírito. Porém, ela não via qualquer uma dessas características naquele casal. Das duas uma, ou os licantropos erraram feio em uma de suas escolhas...:
-... Ou existe algum motivo realmente significativo para o recrutamento aleatório de novos lobisomens.
Não se demorou muito observando através da janela. Adiantou-se em terminar de vestir-se para logo sair e, enquanto isso, especularia sobre o assunto que surgira a partir de um simples 'olhar pela janela'. Tomou o elevador e desceu três andares até alcançar o lobby do Adante Hotel, entregar as chaves ao recepcionista e deixar o edifício sem mais demoras, levando consigo tudo o que havia trazido na noite anterior. Recusou à sugestão do porteiro em chamar um táxi, com a justificativa de que preferia caminhar a enfrentar algum engarrafamento, mas na verdade não queria gastar os poucos dólares que ainda lhe restavam. Só a viagem de Los Angeles, onde reside atualmente, até São Francisco já lhe valera uma boa nota.
Não se privaria, porém, de parar em algum lugar antes para tomar café. É claro que se tomasse um táxi, provavelmente ele lhe indicaria um bom lugar onde fazer sua refeição, porém já havia se recusado uma vez e voltar atrás com sua palavra geralmente não era de seu feitio. Com os olhos baixos, como se estivesse procurando dinheiro perdido no chão, caminhava pela mesma calçada do hotel. Carregava a alça de uma bolsa feminina grande sobre seu ombro direito e, devido ao clima ameno, trajava calças e uma camiseta sem mangas escuras.
Off: Post podree! x_x Genteee... quem quiser interagir, a Adélia está a disposição ;D
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| Howard E. Barish |
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- Mas de novo? Ah, Eddie. Pensei que hoje nós fossemos jantar juntos! Você prometeu que me levaria naquele restaurante de comida japonesa, lembra? Eu até adiantei todos os meus trabalhos! E você sabe que estou terminando a faculdade, é tudo muito corrido, mas ainda sim arrumei tempo para nós. - Qualquer um que ouvisse aquela nossa conversa pensaria: Mais um casal americano em crise! Mas não, aquelas duas pessoas discutindo em um quarto de hotel não eram um casal, mas sim os herdeiros da família Barish, Elizabeth e Howard Barish. Aquele era o hotel que eu havia escolhido naquela semana para me hospedar, minha irmã estava cursando Enfermagem em San Francisco e sempre que eu podia tentava ficar perto dela. Evitava visitá-la em seu apartamento, pois ela o dividia com mais duas garotas, eu não queria causar problemas, sou o misterioso "irmão imaginário" da Liz que nunca aparece para nada. Mas é normal, ela tem as obrigações de universitária, eu de caçador.
- Liz, pela milésima vez eu vou repetir: Não somos mais crianças. Eu não posso adiar mais meus treinos para jogar video game com você ou brincar de qualquer outra coisa. Agora eu realmente sou caçador. Você acha que papai ficaria feliz se soubesse que eu deixaria escapar rastros de lobisomens e ir jantar como se o mundo fosse lindo e perfeito? Não! Nossa vida não é normal, quer dizer, a minha não é, você finje que a sua é. - E depois me arrependi do que disse. Sei como ela fica mal quando falo dessas coisas, sei que ela se sente a "ovelha negra" da família por não ter seguido o caminho de caçadas. Mas não a culpo, às vezes também gostaria de ser apenas mais um "perdido" em um mundo em decadência. - Ok, me desculpa. Não falei por mal...Olha, vamos combinar o seguinte: Eu prometo que antes de sair da cidade eu te levo para jantar, ok? - Puxei-a para um abraço e beijei sua testa. Eu ficava fazendo ronda pelas cidades vizinhas, no máximo. Não conseguia ficar muito tempo longe dela, pois é a única família que me restou. Perdi meus pais, muitos amigos, mas ela eu não posso perder. Assim que ela acabar a faculdade arrumo um jeito de convencê-la a cair na estrada comigo...Ou não.
- Eddie...Eu queria que a gente fosse "normal" juntos. Queria que nós vivessemos como essas famílias de comercial de plano de saúde, sabe? Eu, você, mamãe e papai. Por que o negócio da família tem que ser caçar essas...Essas coisas!? Por que o papai não podia ser um empresário ou um professor normal? E a mamãe dona-de-casa, oras! Por que a gente, Eddie? Por que quando eu era criança eu não apenas temia o Bicho-Papão, mas também tinha que ver meu irmão lutar contra ele? Por que você não jogava football com os amigos, mas sim treinava como matar...Criaturas. Eddie, isso é... - E ela parou de falar. Sabia que, assim como ela ficava chateada quando eu dizia que não caçar era ruim, eu ficava irritado quando ela dizia que caçar era ruim. Muito complicado, eu sei. Mas nem toda família se dá bem sempre, não é? E há pouco tempo atrás perdemos nossa mãe, isso deixou Liz meio...Infantil. Por isso temo deixá-la tão sozinha.
- Liz, isso é a minha realidade. É o que eu sou, não posso lutar contra isso, mas tenho que lutar com isso. Bem, agora preciso ir. Esses pulguentos malditos estão se proliferando como uma praga bíblica, tenho que checar algumas coisas lá por Main Street. - Beijei o rosto dela e deixei um cartão de crédito em cima da mesa, ela podia comprar o que quisesse, pois no meu bolso é que não ia pesar. Com aquele cartão eu era "Adam Patheck". Saí do quarto de hotel meia-boca e não esperei o elevador, aquela velharia demorava demais, então desci correndo pelas escadas, eram apenas quatro lances. Eu vestia uma calça jeans surrada, uma camiseta do Megadeth e uma jaqueta de couro preto. Nas costas minha mochila e na mão direita a chave do carro. Ah, meu carro, meu melhor amigo. Não é um carrão de atrair garotas, na verdade é um carro bem velho e aparentemente muito ruim, isso afasta os ladrões da minha belezinha, pois aquele motor...É um destruidor de estradas.
Caminhei algumas quadras e cheguei, finalmente, em Main Street. Estava agitado, como sempre o trânsito estragando um cenário que poderia ser agradável. Mal me lembro das coisas em Toronto, já fazem quase dez anos que saí de lá, agora os negócios se concentram mais no USA mesmo. Coloquei a mão no bolso, buscando meu maço de cigarros e o isqueiro, porém não encontrei nada. Ah, claro. Liz quer que eu pare de fumar. Ela culpa o cigarro pela morte de nossa mãe, mas não foi câncer de pulmão que a matou, e sim câncer de mama. Mas tanto faz, tudo mata. E eu não posso morrer tão cedo, tenho muito trabalho a fazer, tenho alguém a proteger.
Havia uma entrada para um beco do lado esquerdo, esperei o farol fechar e atravessei. Fiquei parado na frente da entrada do mesmo, olhando impaciente para o relógio, fingindo que estava a espera de alguém. Olhei para os dois lados e avistei um casal trocando carícias um pouco mais...Selvagens. Pareciam normais, mas as informações que recebi é que os licantropos da área estavam menos seletivos, logo qualquer um poderia ser suspeito. Minha Perry na parte interior do casaco pulsava, como se esperasse ação, mas respirei fundo e agi naturalmente, olhando para os lados e para o beco, não ia agir precipitadamente, tinha que seguí-los e descobrir pistas melhores, mas parece que ficar parados e dar uns amassos era melhor para eles. Por mim, tudo bem. Só faltava um cigarro para tornar aquilo tudo mais 'tragável', mas eu tinha prometido que ia parar...E não gosto de quebrar promessas.
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"É interessante perceber que para meros civis aquela cena que ocorria entre o casal de namorados, suas carícias selvagens, não passavam de uma demonstração de atração carnal mais do que explícita. O mínimo que algum cidadão diria a um par como este, se para manter a integridade e o respeito para com o resto da população, seria um breve discusso sobre ética e boas maneiras e, caso não conseguisse impedí-los de continuar com seus amassos constantes, os convidaria para instalarem-se no Adante Hotel, o mais próximo da Main Street, onde ficariam felizes em receber um casal com tanto furor. Porém nem mesmo este cidadão tão inconveniente existe, e se existe, deve ter achado qualquer outra ocupação à testemunhar o coito ao ar livre que aquele casal estava prestes a realizar.
Aos olhos de outros, semelhantes, humanos, porém diferenciados por uma sensibilidade maior diante de situações incomuns, aquela selvageria entre os dois possuia um significado mais amplamente fundamentado do que o simples "eles se amam, estão se curtindo". E exatamente naquele momento um par de olhos observavam, mesmo que discretamente, observava a trajetória daquele casal com algum interesse. Entre outros animais, cães também tem sentidos muito aguçados, sensíveis a mudanças e percepção. Para estes animais, a simples presença, mesmo que invisível ao olhar, de alguém que se mostra uma ameaça a sua vida pode tanto despertar a fúria quanto o desespero dos mesmos. Um simples olhar como o daquele rapaz sobre o casal, os fez ficar alerta e, como que tivessem reconhecido a existência de uma arma na parte interior do casaco deste, voltaram-se imediatamente em sua direção.
A troca de olhares foi inevitável e a confirmação de que eram alvo de olhares curiosos fez os dois namorados correrem na direção oposta. Sua agilidade era incomum, mas mesmo assim não despertou o interesse de nenhum outro civil a não ser aqueles a quem atingiam pelo caminho quando não tinham capacidade de desviar sua trajetória. Não esperaram nem um momento para confirmar se estavam sendo seguidos, tão logo viraram a primeira esquina, uma tentativa de despistar o olhar do caçador."
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| Adélia Westwick |
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Main Street é uma das ruas principais de São Francisco, e mistura alguns edifícios residenciais com o comércio em galerias e lojas nos andares mais baixos dessas construções. A procura por um lugar onde realizar uma refeição antes de tomar o ônibus que a levaria de volta para Los Angeles não durou muito tempo por este motivo. Passou por algumas lojas de moda e decoração, um beco onde havia um rapaz parado (impossível não notá-lo quando este esfava parado bem no meio de seu caminho) e finalmente vislumbrou um café aconchegante a poucos metros do hotel onde estivera hospedada. Teria apressado os passos em direção ao local, já que já havia sentido os resmungos de fome de seu estômago, porém não pôde ignorar os alguns gritos vindos da calçada oposta àquela que se encontrava. Alguns assustados, outros eram apenas o ralhar zangado de alguns passantes. Seu olhar desviou-se das lajotas de concreto que formavam o piso por onde caminhava e seguiram em direção aos gritos, rapidamente identificando a causa para tamanha balbúrdia.
A sonolência que ainda possuia pelo fato de ter acordado a poucos minutos e se sentir enfraquecida por falta de refeições, se esvaiu em questão de segundos. Seus olhos fitavam o percorrer realizado pelo antes apaixonadado casal de licantropos. Como se ficar namorando em público já não fosse o bastante para chamar a atenção dela ou de qualquer outra pessoa que houvesse notado a maneira selvagem e sem pudores que ambos se acariciavam, começavam a correr na direção oposta que outrora estiveram caminhando. Suas feições não enganavam, a maneira como corriam em meio a multidão só poderia indicar que havia algo que os tinha incitado a tal atitude, e ela acabou descartando logo no primeiro momento o possível fato de que eles se sentiam ameaçados por estarem sendo observados por outro caçador.
"Essa pode ser minha chance de descobrir onde fica o canil onde essa corja se esconde."
Estava tendo o mesmo pressentimento que tivera na noite anterior. A razão pela qual havia viajado até São Francisco era única e exclusivamente para realizar um trabalho o qual havia sido contratada para fazer. A lua cheia estava próxima e alguns lobisomens poderiam ser um problema para alguns estabelecimentos muito importantes. Logo, contratar uma caçadora para cuidar desse problema era a melhor solução. Sua luta contra três integrantes de uma alcatéia são franciscana fora o que lhe rendeu os ematomas. Contudo, derrotara todos os três finalmente. A vitória, porém, não lhe trouxera tranquilidade. Pelo contrário, tivera a impressão de que aqueles três seriam o menor de seus problemas, e ver aquele casal provocando uma confusão no meio de uma rua movimentada em plena luz do dia, parecia a confirmação de que a verdadeira luta ainda estava prestes a se iniciar.
-Parem aí, seus pulguentos!! - Sem ligar para o fluxo de carros que ainda percorriam livremente aquela via, empregou alguns passos rápidos tentando atravessar a rua. Ouviu o soar de duas freadas bruscas, mas isso não a impediu de continuar. Rolou por sobre o capô de um terceiro carro que já freara esperando o avanço daquela mulher que insistentemente tentava passar para o outro lado. Apesar da rapidez com que reagiu, perdeu alguns metros de vantagem dos lobisomens. Além disso, estava desarmada. Tecnicamente, sua arma (uma calibre 38) estava guardada dentro da bolsa (uma das desvantagens de ser mulher são as roupas justas, não há como levar uma arma sem no mínimo despertar a curiosidade das pessoas) e no furor de sua perseguição, buscá-la naquele momento iria ser mais um empecilho que lhe impediria de alcançar o casal, metros a sua frente.
Apenas continuou a correr. A bolsa um pouco pesada lhe atrasava um pouco, mas não a largaria. O casal chegou a primeira esquina que conseguiram encontrar e a dobraram, desaparecendo por instantes do campo de visão dela. Resmungou baixinho um palavrão e apressou sua corrida. Não os deixaria escapar.
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| Howard E. Barish |
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Ah, mas que falta me fazia o maldito cigarro! Momentos de tensão como aquele pediam, imploravam um cigarro. E eu estava 'limpo', não tinha nem um papelzinho com um pouco de tabaco como recheio. Conferi em todos os bolsos do casaco e da calça na procura de um cigarro, mas esse foi o meu maior erro. O vício de hoje, a perda de amanhã. Os pulguentos perceberam a minha presença e correram para o lado oposto rapidamente, afirmando ainda mais as minhas suspeitas que eram quase em cem por cento. Esqueci do tal cigarro e comecei a correr. Bem, para a minha sorte o beco em que eu estava parado por perto tinha uma grade que levava ao beco do outro lado, corri a dentro e então escalei rapidamente e pulei para o outro lado. Era uma grande vantagem, pelo menos repararia o meu erro anterior. Quando saí do outro lado da avenidade, vi o casal selvagem correndo entre os carros, não pensei duas vezes e fiz o mesmo. Ainda não havia notado a presença de uma quarta pessoa, que por acaso também era caçadora.
Eu corria o máximo que podia, ignorava os faróis vermelhos e não desviava o olhar das criaturas por nenhum segundo. Eles corriam cada vez mais rápidos e viraram em uma esquina menos movimentada. Havia um terreno baldio lá, e foi onde eles buscaram abrigo. Tirei minha pequena e graciosa Perry (a desert eagle) do bolso interno do casaco e apressei os passos. Impressionante como outrora foram extremamente barulhentos e vistosos, agora estavam bem escondidos no terreno com ruínas de algo que já fora uma construção comercial. Com cautela caminhei os escrombos à dentro, havia uma escada que descia, talvez levasse à algum velho deposito.
Não havia outro lugar para se esconder além daquele, logo concluí que estariam lá. A arma estava carregada e pronta para a ação assim como eu estava. A prata, arma letal para os pulguentos, estava vibrando no revolver, como se desejasse tanto quanto eu dar um fim a aquelas coisas peludas e violentas. San Francisco, que há tempos fora uma cidade pacífica, agora era antro de um monte de saco de pulgas. Ouvi alguns passos, quando olhei para cima vi que havia outra pessoa. Primeiro pensei que fosse mais um deles, mas era humana e além disso caçadora. Uma jovem bonita, cabelos escuros, roupa sensual, mas não parecia muito afim de dividir o serviço. Como se ela não estivesse lá, continuei a descer as escadas e me deparei com uma porta de aço fechada, havia algumas marcas que provavelmente foram causadas por garras na mesma. Bingo, deveriam estar por lá.
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| Adélia Westwick |
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Os poucos segundos em que perdera os licantropos de vista fizeram com que ela pensasse que talvez os havia perdido para sempre - ou até um reencontro em um futuro próximo, se outro caçador não os matasse primeiro - já que costumam ser criaturas de, não só agilidade, mas também perspicacia admiráveis que poderiam deixar um perseguidor para trás em questão de instantes. Porém, ao dobrar a mesma esquina que os pulguentos, não perdeu as esperanças. A primeira imagem que seus olhos vislumbraram foi a dos dois 'animais' saltando sobre os carros, ainda em fulga. Atrás destes havia um terceiro a correr. Seus cabelos desgrenhados, que pareciam ter sido aparados por uma tesoura cega, os trapos que vestia e sua altura considerável fizeram-na pensar que ele poderia ser mais um dos lupinos. Tinha realmente o perfil de um deles, ou pelo menos de alguém a quem eles certamente teriam o prazer de receber em sua alcatéia. Porém, seu jeito desajeitado de correr, ainda mais devido a altura, e sua pouca agilidade em relação aos dois primeiros um pouco mais a frente denunciaram que talvez não passasse de um louco perseguidor de lobisomens. Descobriria mais tarde se tratar de um caçador, assim como ela.
Apertou um pouco mais o passo e conseguiu diminuir a distância que tinha para os licantropos até eles virarem por mais uma esquina, desta vez mais estreita e sem muita movimentação. O caçador foi o próximo a lhe fugir um pouco dos olhos vigilantes, mas não por muito tempo. Dobrou a esquina que parecia um beco sem saída que dava para as ruinas do que a um tempo fora um estabelecimento comercial. Com a descoberta, ela diminuiu seus passos e o andar lhe permitiu vasculhar sua bolsa a procura de sua calibre 38. Examinou o tambor onde seis balas de prata estavam alojadas, e com o polegar girou-o causando um zumbido característico antes de devolver a carga à pistola. Estava totalmente carregada.
"É agora que eu pego vocês..."
Não corria. Apenas andava um pouco mais rápido que o normal. Os braços flexionados a frente do corpo, ambos ocupados com a arma como se esta pesasse um triplo do que realmente pesava. E ela já estava acostumada, e não tão facilmente perdia seus costumes, tanto é que nunca deixou de segurar uma arma tal qual aprendera em suas práticas de tiro ao alvo. "Se quer acertar o disco em cheio, deve possuir o apoio das duas mãos. Uma irá impedir a outra de se exceder ou o contrário. Serão equivalentes." lembrava seu instrutor sempre a lhe falar. Bom, ele só não contava que ao invés de discos de 10 cm de raio, sua pupila estaria atirando em monstros com até dois metros e meio de altura.
Caminhando pelos destroços chegou até uma passagem com uma escada em decida. Levava certamente a um dos poucos cômodos que haviam restado de pé de toda aquela construção. Com cautela espiou o buraco como se a qualquer momento um lobisomem transformado pudesse saltar dali e lhe devorar em uma só mordida. Sua cabeça hesitou por algumas vezes até permitir-lhe ter uma visão do que havia através daquela passagem. O desconhecido que perseguia o mesmo casal que ela decia as escadas que levavam ao andar inferior. Sua língua produziu um estalido contra seus dentes cerrados, simbolizando sua desaprovação em ter companhia para a caça. Nunca fora alguém que gostava de compartilhar as coisas, desde os simples prazeres da vida aos seus deveres como caçadora - e não que estes também não fossem prazeres a serem levados em conta - e não seria naquele momento que mudaria de hábitos.
Começou a descer as escadas e o ecoar de seus passos pelos degraus chamou a atenção de seu "parceiro" de ocupação. Ele a fitou por um momento, mas ela não se esforçou nem um pouco para mostrar a melhor das caras e ele deve tê-la achado, no mínimo, antipática - como se ela ligasse. Ele deixou de observá-la e voltou a investigar o provável caminho pelo qual seguiram os lobos. A outra, não vendo outra saída, o seguiu em sua investigação. O fim das escadas os levaram até um portão com marcas gravadas, muito provavelmente, pelas unhas das criaturas.
"Estão aí dentro... Só podem estar!"
Parou logo ao lado do alto rapaz. Teve que erguer um pouco a cabeça além do olhar para conseguir observar-lhe o rosto. Tinha traços muito severos no rosto extremamente rústico e masculino. Era atraente, não da maneira clássica, mas a seu modo. Estes pensamentos não tomaram por muito tempo a cabeça dela. Buscava no olhar dele algum aspecto de cumplicidade. A porta, único divisor que os separava do casal de lobos que os estaria esperando do outro lado tinha uma aparencia pesada, com o desabamento de grande parte daquele local, alguns destroços produziram deformidades em sua superfície que certamente poderiam comprometer sua funcionalidade nos mecanismos de abrir e fechar. Se não possuisse força o suficiente para abrí-la na hora, teria que apelar para uma ajudinha do seu acompanhante.
-Se me permite... - Levou a mão até a maçaneta, na tentativa de abri-la do modo convencional. Em pensamento ela não acreditava que seria tão simples.
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"Como já era de se esperar, devido as más condições em que se encontrava aquela porta, além da suspeita de que havia algo pesado em seu caminho, impedindo-a de ser aberta, o simples girar de uma maçaneta, ou mesmo aquele velho empurrãozinho para tentar abrí-la não surtiram qualquer efeito. Apenas provocaram ruidos pesados da lingüeta que prendia a porta ainda fechada a sua tranca, o que poderia ter alarmado quem quer que estivesse do outro lado daquela porta sobre a presença de alguém naquelas ruinas, muito provavelmente seus seguidores. Poderiam tentar mais de uma vez, mas o modo convencional não seria o bastante para conseguir abrir passagem por aquela porta.
Contudo, sua passagem através dela não estava completamente impedida. Nada que um bom chute com força na porta, ou alguns tiros caso você esteja bem mais provido de balas, não resolvam a situação."
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| Howard E. Barish |
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Eu sempre quis ter um cachorro de estimação, digo, queria ter quando era menino. Agora não tenho tempo nem para pentear os cabelos, quem dirá cuidar de alguma coisa. Eu não tinha nem dez anos, passei o mês do meu aniversário inteiro enchendo o saco dos meus pais e pedindo um bendito cachorro. Agora, pergunte se eu ganhei um cachorro. Muito bem...Não, eu não ganhei um cachorro. Ao invés disso fui levado para caçar. Bem, a gente entende quando um pai - aqueles que parecem mafiosos, velhos, calvos, charutão e uma barriga enorme, sem contar os dedos cheios de anéis de ouro e pedras raras, o relogio de ouro que é mais caro que a própria vida e tudo mais - levam os filhos para uma caçada na adolescencia. Normalmente seus alvos são veados, ursos ou patos, mas não era esse o tipo de caçada que meu pai me levou. Nós estavamos indo caçar lobisomens. Para que? O que tem a ver? Bem, depois de descobrir o quão grotescas as criaturas eram eu nunca mais quis um cachorro. Não sei o motivo de ter ligado uma coisa a outra, mas não quis. Talvez esse seja o grande motivo por eu odiar licantropos, ah, sem esquecer, é claro, do fato que um deles comeu o braço de um grande amigo de caçada. É, acho que esse pode ser o verdadeiro motivo.
Não restavam mais dúvidas, a bela mulher era uma caçadora. E diga-se de passagem...Uma caçadora das boas - entendam o sentido mais canalha da palavra, por favor - porém muito anti-pática. Com certeza faz o tipo do "eu me viro sozinha, caí fora otário". Está escrito na testa dela, sem dúvidas. Últimamente também sou adepto de caçadas solitárias, mas comecei caçando em família e depois em grupos, às vezes sinto falta de alguém para conversar ou fazer aquela piada de mal gosto sobre alguma situação desgraçada. Mas faz parte...E eu não gostaria de ter uma parceira caçadora, principalmente tão bonita daquele jeito, pois eu ia pensar em muitas outras coisas e acabar esquecendo da caçada. Sabe como é, sou caçador, mas também sou humano e sou homem. O pecado da cobiça habita esse corpo sim senhor. Ela tentou abrir a porta com toda sua delicadeza feminina, mas pelo jeito não seria tão fácil.
- É, o seu jeito falhou. Agora vamos com o meu jeito. - Mal terminei de falar e chutei a porta com toda a minha força. Veja bem, não sou nenhum Salsicha do Scooby Doo - eu sei que foi uma comparação cretina, não me xingue - e também não sou o incrível Hulk, mas tenho força o suficiente para abrir aquela porta na marra. Tudo bem, apenas um chute não funcionou, mas não desisto fácil. Mais um chute, a porta se moveu, ficou entreaberta, não perdi tempo e forcei um terceiro chute. Bingo, a porta estava aberta. Apontei a arma para frente e adentrei, não olhei para conferir se ela vinha ou não, mas provavelmente sim. O lugar estava um caos. Escrombos para todos os lados, muita poeira e móveis velhos e caixas, provavelmente era um antigo depósito ou porão. E claro, era maior do que eu esperava, então servia de bom esconderijo para os pulguentos. Será que era apenas o casal ou tinha mais deles? Tanto faz, não quero mais um cachorro, então posso abrir as portas para a carrocinha.
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| Adélia Westwick |
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Seus pensamentos estavam corretos no fim das contas. A porta nem ao menos se moveu diante de sua tentativa de abri-la da maneira convencional. Mal pode se gabar ao menos de ter previsto que aquele método não iria funcionar, já que era óbvio que os licantropos não deixariam o caminho livre para o acesso de ambos os caçadores que os perseguiam. Porém, mesmo não tendo sucesso em sua tentativa, não se sentiu triste, frustrada ou, no mínimo zangada. Afastou-se da porta pensando em que outros métodos poderia utilizar. Nem imaginou em usar de força física, não era realmente o seu forte jogar seu corpo contra as coisas na tentativa de arrombá-las. Seria um pouco mais sutil, pelo menos em relação ao arrombamento. Pensou em uma ou duas balas. Se acertassem o local certo poderiam conseguir ao menos tirar aquela porta do caminho. Porém seu companheiro parecia estar com pressa para o estudo de caso. Ela não o culpava, a situação necessitava realmente de um pouco de impulsividade e o mínimo de estratégia. Precisavam remover aquele obstáculo do meio o quanto antes. Sorte que ela tinha um homem grande e, com certeza, forte para abrir caminho para a caçada.
O caçador não perdeu tempo e foi só ela sair do caminho para ele meter um chute na porta com toda força que conseguiu reunir no curto espaço de tempo entre o aviso de que iria tentar escancarar a passagem do seu jeito, e o chute em si. Obviamente, o primeiro deles não funcionou. Porém foi de grande ajuda para que o segundo, com o mesmo efeito que o primeiro, conseguisse ao menos abrir uma brecha da passagem. Ao perceber que através da fresta podia ver o que havia do outro lado daquela porta, ela torceu internamente para que o terceiro chute fosse o último e que finalmente pudessem adentrar o local. O som das batidas na porta abafou qualquer outro que pudesse ter sido manifestado dentro do local, e com certeza os lobos dentro do mesmo haviam escutado que tinham visita. O terceiro chute abriu completamente a porta. Agora poderiam entrar. Ele foi primeiro. Tinha o direito de não ser cavalheiro, afinal de contas fora ele que gastara suas energias chutando aquela porta, mas podia ter o mínimo de consideração por ela. Bom, já estavam dentro. Chega que conversa ou pensamentos que pudessem distraí-la. Tinha uma missão para completar. Deixaria para debater os atos daquele caçador mais tarde. Por hora, ele estava sendo de alguma ajuda.
"Onde será que se meteram?"
O lugar era grande, mas não tinha muita diferença para com o resto da construção. Estava aos pedaços, escombros para todos os lados, móveis, caixas armazenadas, poeira. A iluminação era péssima, mas ainda assim havia. Havia buracos no teto que permitiam que os raios de sol da aproximação do fim da tarde daquele dia penetrassem na escuridão daquele, proporcionando-lhe alguns feixes de luz que precariamente iluminavam o que parecia ser um armazém ou porão. Ela observou o lugar com um olhar de desaprovação. Arma em punho e a boca do cano atenta a qualquer movimento que provocaria o disparo de uma bala de prata. Acionou o gatilho com calma, impedindo-se de provocar o menor dos ruidos, mesmo depois de todo aquele barulho provocado pelo arrombamento de seu colega. Um "click" foi o indício que precisava para saber que uma bala estava na agulha.
"Saiam de onde estiverem seus pulguentos desgraçados!"
-Tsc...
Lentamente fora se aproximando de um amontoado de quase três metros de caixas. Era um bom lugar para começar a procurar. A luz dos feixes não chegavam naquele local, o que dificultava a visibilidade de quem escolhesse começar a procurar por aquele lado. Os passos eram lentos e tentava controlar a respiração para não parecer ansiosa, porque Deus sabe que estes animais percebem quando suas vítimas estão nervosas, ansiosas ou mesmo assustadas. Estava muito próxima, agora prendia a respiração pois seu próximo movimento seria rápido. Lançou o corpo para o lado, em direção a parte de trás da muralha de caixas, a arma apontada para a frente e o dedo indicador que segurava o gatilho estava preparado para o disparo.
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| _narrador |
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"O cômodo até então trancado pela porta recém-arrombada, revelava-se mais amplo do que aqueles que o queriam invadir imaginaram, mas correspondia às expectativas de ao menos um deles. Tratava-se de um velho depósito subterrâneo e, observando as mercadorias que haviam naquele local, era fácil deduzir que se tratava de uma velha loja de móveis. Alguns estavam espalhados, entregue ao mofo e possíveis pragas que poderiam desenvolver-se na escuridão que tomava o local. Outros ainda residiam às caixas lacradas, estas geralmente amontoadas próximo às paredes, formando por trás de suas pilhas, estreitos e escuros corredores. Não era completamente desprovido de iluminação aquele armazém. O teto possuía algumas falhas, resultantes provavelmente do desmoronamento do andar superior, e que permitiam a alguns feixes de luz do sol da tarde de iluminar precariamente do local. O chão era falho, pedras grandes, talvez pertencentes anteriormente ao próprio teto do estabelecimento, tornavam-se armadilhas para aqueles que não tomassem cuidado nos seus passos. Através dos feixes era possível enxergar as partículas de poeira formando uma camada densa a pairar pelo ar. O cheiro era característico de um lugar que estivera trancado por muito tempo, e apenas uma fraca corrente de ar permitia que o ar não fosse pesado demais para a respiração.
Ouviu-se um som. Uma respiração ofegante era o arfar depois de uma corrida pelos cantos do cômodo, a sua maioria protegidas pela escuridão de móveis e caixas. Eram ótimos locais para esconderijo. Logo outro som foi escutado, desta vez vindo do extremo oposto. Era indiscutivelmente madeira, como uma tábua pequena que caira no chão. As atenções deveriam ser voltadas para aquele lado, mas caçadores não se alarmariam tão facilmente. Mais um som. Eram passos, trôpegos, correndo em volta da sala, por trás dos obstáculos à visão dos caçadores. Não era possível notar sombras ou mesmo a silhueta de criatura alguma. A iluminação era precária demais para isso. Aproveitando-se disso como uma vantagem, obviamente os lobisomens que estavam presos àquele cômodo estavam tentando confundir seus perseguidores.
Porém, um deles aproximava-se de um dos amontoados de caixas. Obviamente começar a procurar pelos locais onde era possível se esconder melhor era o melhor a fazer. Só não esperavam que esta fosse ser a primeira opção dos caçadores. Felizmente, ela não estava próxima de encurralar nenhum dos lobos, mas e quando começasse a procurar? Seriam eles quem iriam surpreender desta vez. Um uivo ecoou pelo cômodo, alto, fazendo com que qualquer outro ruído fosse abafado pela potência das cordas vocais dos animais embrenhados na escuridão. Impossibilitados de escutar qualquer coisa além do ruído longo e insistente daquele uivar lupino, não houve como prever a aproximação da fêmea.
De cima de um amontoado de caixas no canto direito da sala, próximo a entrada por onde os caçadores passaram, a mesma mulher que avistaram na rua com feições clássicas de uma humana normal, agora tinha o cenho franzido. Rugas se formaram ao redor de seus olhos e suas pupilas dilataram de maneira que já não era mais possível vislumbrar o verde natural dos mesmos. Seus cabelos não eram mais lisos. Estavam selvagemente desgrenhados e se não soubessem que ela era um licantropo, uma outra hipótese para seu estado capilar seria a de que aquilo fora o que lhe rendera os carinhos selvagens de seu parceiro. Os pêlos que tinha no corpo humano estavam eriçados e os caninos estavam pouco maiores do que os de um humano normal. Não estava transformada, afinal. Apenas despertara, em um momento de desespero, grande parte das características que formavam sua raça e talvez, a proximidade que estavam da lua cheia contribuísse para que tais características mais facilmente se tornassem visíveis. Apesar de ser mulher, não impedia-se de transparecer todos os caracteres selvagens de um lobisomem e muito menos de atacar a um outro homem. Assim que se fez surgir, saltou de cima das caixas avançando em direção ao caçador que ficara para trás. Era bem menor que sua presa, mas não duvidava que sua força dessa conta do trabalho.
A outra caçadora não ficaria por muito tempo a ver seu parceiro lutar contra a primeira lupina. Tão logo o outro dera a volta pelas caixas, aproveitando-se da balburdia causada por sua amada, avançou em direção à caçadora. Mantinha assim como sua parceira, as mesmas características. Ambos, tanto a mulher quanto o homem, tomaram as devidas precauções para que conseguissem pegar ambos os caçadores de surpresa. O que primeiro tentaram fazer fora desarmá-los. O toque em uma bala causava uma dor quase que insuportável para aquelas criaturas, tal qual ácido quando em contato com a pele humana, e quando acertadas nos locais certos poderiam provocar sua morte em instantes. Com socos e tapas ferozes, não ignorando a força que tais criaturas possuem, elas tentavam afastar as armas ao mesmo tempo que atacavam sem piedade seus inimigos."
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| Howard E. Barish |
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~ Caçador

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A porta era pesada e causou um barulho alarmante assim que entramos, óbviamente os pulguentos já estavam avisados de que os seus queridos companheiros estavam lá. A garota seguiu para um lado e eu para o outro, mas ambos com a mesma intenção de observar atrás das caixas e nas frestas escuras em meio toda aquela bagunça. Ouvi um "click" da arma engatilhada da garota, logo depois ouvi outro "click", mas este era da minha arma. Engoli a saliva em seco, respirei fundo sem fazer barulho algum e deu alguns passos a frente. Eu odiava lugares fechados como aquele, principalmente com um ar abandonado e cheio de bagunças, pois me lembrava certos episódios desconfortáveis da minha vida. Mas eu não podia viver cada novo dia pensando no que já vivera, certo? Então mirei a arma para uma pilha de caixas que vi tremer, mas era apenas outro alarme falso. As criaturas estavam desesperadas e a cada momento davam pistas falsas, eu já estava me cansando desse jogo imaturo de blefes, foi quando aquele uivo ensurdecedor ecoou pelo lugar. Meus pêlos do corpo até se arrepiaram e com certeza fiz uma careta de desgosto, mas mesmo assim não soltei meu revólver, apenas franzi o cenho e apertei bem os olhos, pois não podia tampar os ouvidos e ficar desarmado.
Foi então que tudo aconteceu muito rápido, creio que aqueles sacos de pulgas também se cansaram de brincar e resolveram dar um jeito mais maduro as coisas. Do meio de um amontoado de caixas empilhadas, próximo de onde haviamos acabado de sair, a garota pulou. Ainda dava para reconhecer que era a "moça" que trocava carícias selvagens no meio da rua, mas seus caninos estavam maiores, seu cabelo desgrenhado e rugas por todo o rosto. Ela parecia firme e decidida a me atacar e não demorou mais do que dez segundos para fazê-lo. Pulou para cima de mim e caímos no chão. Ela era pequena, mas muito forte. Essas criaturas podem enganar bem na forma humana, mas continuam sendo monstros de força assustadora.
Ela tentava de todo e qualquer jeito me desarmar primeiro, avançava com mordidas e arranhões e na posição em que eu estava tudo que podia fazer era esquivar e tentar mirar para atirar. Ponto para ela, conseguiu atirar minha arma para longe. Talvez se eu estedesse a mão esquerda e me arrastasse alguns centímetros para o lado eu conseguisse pegar, mas quem disse que ela ia facilitar as coisas? Estava sentada em cima de mim, arranhando meu peito com suas garras e tentando me morder, mas deixei a arma de lado e tentei medir forças com ela tempo o suficiente para me livrar de mordidas e depois pegar a arma. Olhei para o lado rápidamente e vi que minha colega de trabalho tinha problemas com o macho, mas pelo jeito que ela se portava anteriormente, presumi que desse conta do trabalho e não me preocupei muito, talvez só um pouco.
Antes nós éramos os caçadores, agora éramos as presas. A lupina sentada em cima de mim não dava segundo algum para que eu pudesse revidar, e ela inventava uma nova maneira de me acertar a cada instante. Pegou a tampa de uma das caixas de madeira vazias atrás de nós e começou a usar esta para bater na minha cabeça, afim de me nocautear. Será que pretendiam nos tirar dali vivos? Já ouvi histórias de criaturas que transformam os caçadores em sua espécie para amaldiçoá-los e impedí-los de caçar, mas nem de longe eu desejava virar uma coisa nojenta daquelas. Concentrei toda minha força em minhas coxas, que era próximo de onde ela estava sentada, e empurrei para o lado, ela que estava concentrada em me desacordar de tanto bater na minha cabeça, caiu para o lado direito e eu me movi para o lado esquerdo rápidamente, retomando a posse da arma. Assim que ela viu o revólver em minha mão, arregalou os olhos, grunhiu e pulou para cima de mim novamente. A briga corpo-a-corpo continuou, agora ela estava mais violenta e tentava acertar as mordidas em meu pescoço, provavelmente gostaria de me ver sangrar até morrer. Eu sentia o gatilho da arma em meus dedos, mas não estava conseguindo posicionar a arma direito.
Havia um brilho selvagem no olhar dela e a cada segundo se tornava mais ágil e mais violenta. Agora caixas de madeira - com ou sem coisas dentro - eram arremessadas para cima de mim e tudo que eu podia fazer era esquivar, pois ela se movia rápido demais para que eu conseguisse mirar. Uma das caixas me acertou, fazendo com que eu caísse no chão violentamente e batesse as costas na parede, estava pesadas, mas para minha sorte só havia um puff dentro dela, então eu não ficaria aleijado. Essa foi a minha deixa para acertá-la, pois ao ver que me acertou com a caixa, achou que tinha me nocauteado - pois fingi cair desacordado - então quando ela se aproximou para finalizar o serviço, ergui a cabeça, sorri para ela e disparei. O tiro foi certeiro em seu peito, mais para o lado esquerdo, pegando em cheio no coração. Ela caiu em cima da caixa - respectivamente em cima de mim - e voltou com seu olhar esverdeado e uma expressão mórbida. Aquela era uma pulguenta a menos no mundo. Empurrei o corpo para o lado junto com a caixa e me levantei, sentia uma dor nas costas terrível, mas precisava ver se a outra caçadora estava bem ou se podia ajudá-la.
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| Adélia Westwick |
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~ Caçadora

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Apontou sua arma para o nada, escuro. Por apenas uma fração mínima de segundos sentiu-se desapontada por não ter logo um lupino em sua mira, porém não houve tempo o bastante para que pudesse maquinar seu próximo movimento. Um uivo alto ecoou por todo cômodo, impedindo-os inclusive de saber de onde vinha tal som. Os olhos daquela caçadora tentaram encarar todos os espaços possíveis naquele grande porão. A iluminação era péssima e o som do uivo ainda constante abafou grande parte dos palavrões que resmungou antes de dar alguns passos afastando-se de trás das caixas. Foi só o tempo de surgir a nova criatura, a mulher, sobre algumas caixas empilhadas, e a caçadora ameaçou atirar com cano de sua arma apontado para a criatura meio transformada a sua frente. Esta não estava interessada nela, e tão logo saltou sobre o outro caçador, mais próximo dela.
"Maldita! Agora não posso atirar sem correr o risco de acertar nele. Argh! E agora que está desarmado... Dificilmente dará conta."
Fez menção em seguir na direção dos dois combatentes, porém não teria tempo nem ao menos de mover-se, algo aproximou-se rapidamente de sie tentou agarrá-la. Era o macho. Sua forma tão alterada quanto a de sua parceira. Alguns podem dizer que foi habilidade, outros apenas que foi um ato de puro reflexo, mas ao perceber que estava sendo perseguinda, ela simplesmente virou seu corpo para a criatura e jogou seu corpo no chão. Machucou as costas realizando tal movimento, com o assoalho no estado deplorável em que se encontrava. Suas pernas serviram como uma espécie de catapulta que lançou o lobo macho para longe de si. A criatura era agil e caiu sobre os pés descalço, deslizando e erguendo um rastro de poeira por onde passava. Ela também apressou-se em colocar-se em uma posição propícia ao combate.
-Você não vai ter tanta sorte quanto aquela cadela, totó!
O lupino então avançou mais uma vez. Ela segurou firmemente sua 38 com as duas mãos e atirou duas vezes. Seu adversário incrivelmente desviou de suas duas balas. Puxar o gatilho mais uma vez foi impossível. O lobisomen estava próximo o bastante e deu uma "patada" com uma de suas mãos, jogando a arma um pouco longe. A outra desferiu uma pancada no rosto da jovem caçadora. Imediatamente, seu rosto ficou um tanto vermelho, e futuramente estaria roxo. Se suas feições já eram intimidadoras, agora alcançaram o mais alto patamar da ameaça. Nesse momento ela não conseguiu segurar sua fúria e partiu para a agressão física. Ignorar a força daqueles lupinos era impossível, obviamente, mas seu orgulho não lhe permitia deixar barato para aquele que havia não apenas erguido a mão para ela, mas inclusive havia ferido seu rosto.
-Maldito! Vai pagar por isso!
Começou a golpeá-lo com socos, enquanto o outro braço, com dificuldade, aparava grande parte dos golpes do lobisomem. Obviamente, mais tarde naquele mesmo dia, aquele membro estaria incapacitado para o uso. Desviou de um "gancho de esquerda" do licantropo e agaixou-se para tentar uma rasteira. Seu adverário felizmente não estava preparado, e caiu. Não avançaria para mais golpes aproveitando sua queda - não era tão selvagem quanto sua parceira e também não queria correr o risco do lupino gostar - correu até onde estava sua arma. Com a 38 em mãos, não acompanhou enquanto o lobo recobrava novamente e mais uma vez tentava me atacar. Não arrisquei mais tiros, esperei uma maior proximidade.
Ele correu alguns passos em sua direção, mas logo desviou sua trajetória. Correndo para um dos lados como se quisesse confundí-la como a pouco tentara com seus uivos pela sala. Ela disparou algumas vezes mais, acertando nas paredes e, em um dos saltos do lobo acertou duas balas no teto, causando o desmoronamento de parte do mesmo. Um buraco se formou, fucionando como uma clarabóia, tornando melhor a iluminação do local. O que aconteceu em seguida foi rápido. Ouviu-se um tiro vindo do outro lado da sala e ambos se voltaram para a lupina morta ao lado do caçador que já começava a se levantar. A caçadora voltou sua atenção para o lupino que ainda lamentava a morte de sua amada com ganidos e uivos chorosos. Apontou novamente o cano de sua arma para o lupino e tentou atirar. Como o local estava silencioso, como se em respeito a morte da criatura que havia lutado contra o caçador do outro lado do porão, conseguiu ouvir apenas um tique indicando que o tambor da arma estava descarregado. Infelizmente, o lupino também ouviu e, com os olhos enrugados e um tanto encharcado pelas lágrimas, voltou um olhar ameaçador para a caçadora. Não se demorou muito a encarando. Aproveitou a formação daquela clarabóia e saltando por sobre uma pilha de caixas conseguiu novamente subir À superfície e fugir.
-Bela hora para as balas acabarem. Até a próxima então... -Disse balançando a cabeça e catando dentro de sua bolsa o depósito onde armazenava sua munição. De dentro da bolsa sua mão carregava seis balas grandes de prata que reluziam diante da luz que finalmente penetrava em feixes sólidos no local. Caminhou em direção à saída e, inevitavelmente passou ao lado do caçador. Parou e olhou para ele, tentou amenizar um pouco suas feições nada amigáveis, mas isso pareceu uma tarefa praticamente impossível. -Fez um bom trabalho aqui.
Olhou para a figura agora com características completamente humanas morta no chão sem se abalar. Seus dedos acionavam o mecanismo que expelia o tambor do revolver para voltar a carregá-lo com as seis balas que tinha na mão.
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