O CONSELHO
- Pt.1 -
Bastou apenas que algumas nuvens encobrissem o brilho da lua, e a escuridão envolvesse grande parte daquelas montanhas cobertas de neve, para que no interior da maior delas, onde havia um grande salão digno de um palácio montado, os archotes quase que magicamente queimaram em chamas. O lustre revelava também sua própria iluminação e afastava alguns roedores que se encontravam próximos da luz para os cantos, buscando um buraco nas grossas paredes de pedra bruta onde poderiam se alojar até que seus olhinho já tivessem se acostumado com a iluminação repentina a qual haviam sido submetidos. Ouviu-se o guincho e o farfalhar das asas dos morcegos que adormeciam no teto, também assustados e mais do que incomodados com a iluminação que voltava a surgir naquele local. Junto com esta, não só revelou-se a mesa em forma de pentágono, sua estrela de cinco pontas (o pentagrama) talhado sobre a mesma, e as cinco cadeiras que circundavam o móvel, mas também quatro figuras posicionadas logo atrás de quatro das cinco cadeiras existentes. Quedaram-se imóveis por alguns instantes, como se esperassem que todo aquele estardalhaço feito pelas criaturas que habitavam aquele local cessassem, para que pudessem se mexer. Apenas um dos quatro se atreveu a mudar de posição. Num gesto rápido, ele agarrou um dos ratos que corria nervosamente em busca de refúgio e o aproximou de seu rosto, onde havia um sorriso malicioso desenhado. O roedor se contorcia para livrar-se da prisão em que se encontrava, mas sua força não fora o suficiente para fazê-lo soltar-se. Contorceu-se então o máximo para alcançar os dedos de seu caçador e então mordê-los com toda a força que ainda lhe restava. O homem não se incomodou com as feridas abertas e o sangue que agora decia por entre seus dedos e manchava o pelo cinzento e sujo do animal que prendia. A atitude do roedor só o fez sorrir mais largamente e tão logo encaminhou a cabeça do animal direto para sua boca, onde um par de presas se projetara para ele morder. Sem muita dificuldade, arrancou a cabeça do rato e passou a mascá-la como a uma goma de mascar, sentindo os ossinhos frágeis da criatura a proporcionar à sua refeição um teor mais "crocante". Uma gota de sangue fugiu-lhe dos lábios escorrendo pelo canto da boca.
-Oh, Theodore! Por favor... Guarde os atos grotescos para quando estiver sozinho em sua alcova. Não sou obrigada a presenciar mais uma de suas cenas repugnantes. -disse a única mulher a integrar aquele grupo que se encontrava ali, enquanto sentava-se em sua cadeira, escorando o cotovelo sobre o braço da cadeira e a cabeça sobre a mão, expressando cansaso e desdém no olhar ao vampiro a sua frente.
-Não vamos perder tempo com discussões tolas, meus caros. Vamos ao assunto que realmente interessa aqui. A razão pela qual este encontro fora solicitado. Imagino que todos já imaginem o motivo de estarmos aqui esta noite. -Desta vez foi um homem alto e negro, a face austeira não transmitia qualquer sinal de idade, mas certamente era o mais velho dos quatro ocupantes daquela mesa. Diante das afirmações feitas por este, a mulher, a única, voltou a se pronunciar.
-Não, não imagino o motivo de estarmos aqui. -Seu tom de voz estava um tanto afetado. Sinal de que não queria permanecer ali.
-E se este for apenas para continuar assistindo a este espetáculo de horrores promovidos por Theodore, prefiro retirar-me ao meu refúgio para a céia. Ainda esta noite não saciei toda fome que possuo.O jeito como ela trocou a posição dos cotovelos sobre os braços da cadeira pareciam querer dizer que a qualquer momento ela iria erguer-se para se retirar do local. Porém, seu movimento apenas buscava inscitar alguém a lhe dizer de uma vez por todas o motivo pelo qual estavam se reunindo naquele lugar. A provocação ao seu colega Theodore fora proposital. Quem quer que conhecesse a história de ambos saberia o porque de tanto repúdio por parte dela. Esta história, porém, ficará para um outro dia. O que interessa agora é realmente este momento. O encontro.
-Se engana, Genevière querida. Não estamos aqui para me ver degustar este miserável roedor, como também não estamos para ouvir o soar estridente e irritante de sua voz, minha cara. -Respondeu às provocações dela com a mesma categoria, Theodore.
-Theodore, sabes que não suporto vampiros degenerados. Mas poderia abrir uma excessão e cometer uma diablerie neste instante! -Os olhos dela pareciam soltar faiscas.
-Chega!!! -O quarto vampiro, e último a se pronunciar ralhou. Este tinha a pele morena, um pouco mais avermelhada que a de seus companheiros em mesa, porém pálida pela caracteristica "vampirica" que possuia. Aliás, característica essa existente em todos aqueles sentados em volta do pentágono da mesa.
-Não seja hipócrita, Genevière! Não finja-se alheia à realidade que nossa raça está vivendo atualmente. A morte Hektor, o rompimento do laço de união de nossa raça, o sucessivo enfraquecimento de nosso poder... E por conseguinte a perda de nossas crias, a morte a que são submetidas por terem se afastado do clã. Não acha motivo o bastante para nos reunirmos aqui?-Acalme-se, Hajin. Não perca a cabeça você também. Precisamos estar calmos se queremos chegar a uma solução para nossos problemas durante este nosso encontro. -O negro era definitivamente o mediador daquela reunião. Olhou pelo canto dos olhos escuros os rostos à sua volta. As feições femininas exageradamente marcadas no rosto de beleza européia de Genevière, o rosto de pele mais escura, um tanto avermelhada pelo sol, porém não o bastante para considerá-lo vivo de Hajin, e o olhar sempre doentio no rosto sujo de cabelos mal cortados e barba mal feita de Theodore. Seu olhar parou por um momento sobre a última cadeira, o último assento vazio naquela mesa. Permaneceria assim, já que Hektor não mais retornaria a sentar nele. Já havia superado a morte pelo menos duas vezes, porém na segunda vez não resistiu a sua força e sucumbiu. Era o fim do seu reinado vampírico.
-Está aberta mais uma reunião do Conselho.O negro Kanu, que agora se encarregava de por em ordem a discussão da reunião, bateu o martelo.
-Com a morte de Hektor, o clã se separou por completo. Foram poucos os que permaneceram leais a nossa causa. Aqueles que permaneceram ainda contaram com nossa proteção, e mesmo estes ainda corriam grandes riscos. -Hajin transmitia com algum pesar em sua voz aquelas informações, como um relato curto do que ocorreu com a separação do grupo dos vampiros.
-Quanto àqueles que se foram, seguindo caminhos distindos e solitários, não podemos falar por eles obviamente. Mas imagino que tiveram um fim tão traiçoeiro, ou pior do que o daqueles os quais nós protegemos e, no final, vimos morrer.-Tive meu grupo de protegidos, os únicos que ainda me seguiam e, por conseguinte, seguiam os ideais do clã desfalcado pelos lupinos. Agora estamos apenas em treze, e este número tente a diminuir rapidamente. -Theodore continuou.
-A culpa é dos lupinos! -Ralhou Hajin, e Kanu teve que erguer sua mão para que ele não manifestasse mais uma exclamação inútil. Ele abaixou a cabeça como se pedisse desculpas por seu pavil curto, e voltou a falar agora, sua voz um pouco mais grave que o normal, mais ainda sim auditível.
-Algumas de minhas fontes já me informaram que os lupinos estão aproveitando a vantagem e convocando cada vez mais humanos transformados para integrarem sua raça. Já devem ter notado nossa vulnerabilidade e pretendem criar uma vantagem sobre nosso número enquanto estamos em desvantagem. Eles não mais fazem distinção sobre aspectos físicos e psicológicos daqueles a quem escolhem. Estão mordendo como loucos tudo o que encontram pela frente.-Tenho que admitir que a princípio fui ingênua e não pensei que tais ataques tivessem outro propósito que não apenas nos provocar. Eles desejam mesmo nos exterminar. Temos que tomar alguma providência quanto a isso! - Revelou Genevière, voltando a se manifestar após uma longa pausa, digerindo as acusações feitas por Hajin e as provocações de Theodore.
-Talvez este gesto precipitado possa ser usado contra eles. O fato de não haver mais esta distinção pode ser o ponto fraco que precisavamos para o melhor contrataque. -Theodore volta a falar, desta vez não houveram rugas ou caretas projetadas no rosto de Genevière. Estavam completamente absortos naquela discussão.
-Mas como o fariamos se não existe mais a união em nosso grupo. Os vampiros estão dispersos, já não acreditam mais em nossas causas. Desejam apenas viver suas pós-vidas da maneira que lhes for mais conveniente.-Nunca pensei que chegaria a dizer isso, mas estamos fracos. Os lupinos têm a vantagem desta vez e, se forem mais esperto do que nós pensamos - o que espero que não sejam - poderão nos derrotar completamente se organizarem uma investida com tudo o que têm. Eles têm força para isso. -Hajin abaixou a cabeça, seu olhar não demonstrava o desolamento que sentia. Estava sério, convicto, sentado na melhor postura que poderia se por naquela cadeira.
-A solução é clara, meus caros. A reunião de nosso grupo e uma vitória sobre os lobisomens serão o suficiente para nos pôr novamente em batalha como páreo para os lupinos.-E como fazer isso? Pensei que executar milagres fossem apenas dádivas concebidas à anjos. Além do mais, o único que conseguira realizar tal façanha está morto. -Todos os olhos se voltaram novamente para a única cadeira vazia na mesa pentagonal.
-Ela - finalmente - tem razão, Kanu. Hektor foi realmente um líder digno. Tivemos azar por ele não ter treinado aquele que tomaria seu trono caso algo lhe acontecesse.Ficaram em silêncio então. Kanu movia os olhos pelas ranhuras da mesa como se procurasse a solução em uma delas. Os outros apenas se olhavam, ou tentavam não se olhar como era o caso de Theodore e Genevière. Até que o negro emergiu de seus pensamentos como alguém emergiria de um mergulho na água. Todos notaram a sua volta do transe em que havia mergulhado e voltaram-se atentos para ele, esperando que lhes desse a solução para a crise que estava ocorrendo.
Continua...